Meio Ambiente: Minas perde se investidores se afastarem do Brasil

O alerta é de Mário Campos, presidente do Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da Fiemg, em entrevista exclusiva ao Interesse de Minas

Serra do Cipó (Foto: Pixabay)

Danilo Andrade
dandrade@interessedeminas.com.br
Mário Campos, presidente do Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da Fiemg, alerta sobre as consequências da atual política ambiental brasileira (Foto: arquivo pessoal)

O posicionamento internacional contra a política ambiental do governo brasileiro – e contra o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente – pode impactar negativamente Minas Gerais. O alerta é de Mário Campos, presidente do Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), em entrevista exclusiva ao Interesse de Minas.

Os investidores acusam o ministro e o governo brasileiro de leniência que resulta na adoção de políticas que incentivam a depredação do meio ambiente sobretudo na região amazônica, com a prática ilegal de desmatamento, queimadas e mineração (garimpo).  

Nascido do posicionamento de gestores de fundos de investimentos internacionais, que administram recursos superiores a 5 trilhões de dólares e ameaçam excluir o Brasil de seus investimentos, este movimento ganhou também nos últimos dias, o apoio de fundos de investimento brasileiros, dos maiores empresários do país e de especialistas no setor.  

Embora considere a possibilidade de contaminação do movimento por lobbies contra o agronegócio brasileiro, Mário Campos adverte que “quaisquer movimentos do capital internacional devem ser vistos com atenção e cuidado”. E acrescenta: o Brasil precisa, e precisa muito, de grandes investimentos em obras de infraestrutura vitais para sustentar o crescimento da economia do país.

IM: Como este movimento que nasceu do consenso de gestores de fundos de investimentos internacionais pode prejudicar Minas Gerais?

Mário Campos: De fato, este movimento que se sustenta no entendimento de que tem aumentado excessivamente na região amazônica o desmatamento ilegal, as queimadas e também a mineração ilegal, sobretudo garimpo, pode penalizar fortemente Minas Gerais. Nosso estado precisa, e precisa muito, do aporte de grandes investimentos, e eles estão principalmente no exterior, para acelerar um amplo programa de obras de infraestrutura. Os exemplos de obras essenciais são muitos e vou me fixar em apenas um, muito emblemático: a duplicação da BR-381. É uma obra fundamental e estratégica, do ponto de vista econômico e social, que se arrasta há décadas, sem solução. Neste momento em que o governo anuncia um amplo programa de concessões, cria-se uma expectativa favorável, que, no entanto, só se concretizará se pudermos contar com investimentos e investidores internacionais.

Há risco também para programas de investimento de empresas instaladas em Minas ou que queiram aqui se instalar?

Temos um parque industrial muito dependente de grandes investimentos. Para que eles se concretizem, é necessário que o capital internacional veja o Brasil e Minas Gerais como bons lugares para se investir. Ademais, a economia mineira passa por um intenso e consistente processo de diversificação, assumindo posicionamento relevante nos campos do agronegócio, sucro-energético, madeira para celulose, foto- energia e alimentos, dentre muitos outros. E tudo isso demanda muito investimento.

O que fazer para que o fluxo de investimentos para Minas e o Brasil não seja interrompido?

O primeiro passo é entender que, hoje, as questões ambiental e econômica, no mundo e no Brasil, são regidas por três palavras que se juntam em uma sigla universal: ESG – que significa meio ambiente (environment), social e governança. É a maneira como tratam estas questões que vão determinar como países e empresas serão vistos no mundo da sustentabilidade.

Meio ambiente não é uma questão ideológica, de esquerda ou de direita. É questão de sobrevivência da nossa economia e da nossa espécie no planeta
Mário Campos

Como estamos nesta “fita” que mostra questões objetivas como as queimadas, o desmatamento e a mineração (garimpo) ilegais?

A área, com certeza, problemas e erros que devem e precisam ser corrigidos. Mas é necessário, igualmente, agilidade nas ações governamentais em relação ao meio ambiente. O próprio vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, já admitiu que o governo se atrasou na tomada de medidas para corrigir e evitar ilegalidades no desmatamento, nas queimadas e até nos garimpos – este é um primeiro passo…

O que mais é necessário…

A comunicação é fundamental e estratégica – e nesta área estamos perdendo, estamos em desvantagem. O governo precisa ter competência para mostrar o que se faz de positivo no Brasil no campo do meio ambiente, que compreendemos que a floresta é fundamental para o regime das chuvas, para o clima, que temos consciência da nossa importância como líderes em biodiversidade e que temos plenas condições de produzir e preservar. Também é importante mostrar ao mundo que precisamos criar condições de vida para a população que vive na Amazônia. São mais de 20 milhões de pessoas…

Temos avançado nesta direção? Há luz no fim do túnel – o ministro Ricardo Sales deve ficar no cargo ou ser demitido?

A escolha de ministros, bem como demissões, é prerrogativa exclusiva do presidente da República. O positivo e importante, demonstração inequívoca de que o governo vê a questão amazônica como prioridade, foi a nomeação do vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, para presidir o Conselho da Amazônia Legal. Igualmente importante é que o vice-presidente vem se dedicando com afinco à missão que recebeu, como mostra o recente decreto que proíbe queimados por 120 dias.

E em Minas, onde tivemos nos últimos cinco anos as duas maiores tragédias ambientais do país, com o rompimento das barragens da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019)?

Minas Gerais tem uma das melhores e mais severas legislações ambientais do país – o estado é considerado exemplo no setor. Os lamentáveis episódios das barragens foi uma questão de engenharia. Nestes casos, o poder público agiu rapidamente e criou nova legislação para regulamentar a construção e gestão das barragens, de forma a afastar o risco de novos acidentes. E o próprio setor tem se preocupado em melhorar sua comunicação com a sociedade. E é muito bom que seja assim, pois também na indústria mineração atuam lobbies internacionais contra os interesses brasileiros.

Qual é o caminho, de agora em diante, nas questões de governança que envolvem a harmonização entre meio ambiente e economia?

Como disse, vivemos sob a égide do conceito ESG – o meio ambiente, a questão social e a governança empresarial. A grande lição que devemos tirar é a de que meio ambiente não é e não pode ser transformada em uma questão ideológica, de esquerda ou de direita. Meio ambiente é uma questão de sobrevivência da nossa economia e da nossa espécie no planeta.

O entrevistado

Mário Ferreira Campos Filho é economista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com MBA em Finanças pelo IBMEC e Relações Governamentais pela FGV de Brasília. Ingressou na Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais – SIAMIG – em 2003, assumindo depois a função de Superintendente e Secretário Executivo. Em 2014, foi eleito presidente da SIAMIG e dos Sindicatos da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Minas Gerais, reeleito em 2017 por um período de três anos. Mário Campos representa os produtores de açúcar e energia renovável, como o etanol e a bioeletricidade.  Mário Campos também é presidente do Conselho Empresarial de Meio Ambiente e de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias de Minas Gerais (CEMA) e vice-presidente do Centro Industrial e Empresarial de Minas Gerais (CIEMG). Além de membro do Conselho Temático da Agroindústria e do Meio Ambiente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) – COAGRO / COEMA.

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