Efeitos do coronavírus: “Sofrerão os mais pobres”, afirma economista mineiro

O especialista e ex-presidente do Corecon-MG, Paulo Bretas, faz uma análise das consequências da pandemia de Covid-9 para a economia brasileira

Usuário do transporte público do DF adere ao uso de máscaras descartáveis por precaução contra o coronavírus (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Da redação
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Economista mineiro Paulo Bretas faz uma análise das consequências do coronavírus no Brasil (Foto: divulgação)

A pandemia de coronavírus já está causando efeitos negativos na economia e tem derrubado mercados ao redor do mundo – e não Brasil não está sendo diferente. Nas últimas semanas, a bolsa de valores despencou e o dólar disparou. Especialistas e economistas já projetam queda do PIB brasileiro em 2020, que já teve um crescimento pífio de 1,1% em 2019, apesar das grandes perspectivas no ano passado.

“Pode ser que entremos em nova recessão pois, o mercado não sobrevive sem a circulação de pessoas, dinheiro e mercadorias”. É o que afirma o economista e professor mineiro Paulo Bretas, ex-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG). O especialista faz uma análise das consequências da pandemia de Covid-9 para a economia brasileira.

Para ele, os efeitos da crise gerada pela doença afetarão os mais pobres e vulneráveis, que habitam áreas sem saneamento, os trabalhadores informais e aqueles que não têm acesso aos sistemas de saúde de qualidade.

Confira a análise completa do economista a seguir.

  • A pandemia de coronavírus vai provocar um estrago em muitas áreas da economia no Brasil e no mundo.
  • Percebe-se uma ausência de estratégia articulada e alinhada para dar combate ao grave problema, por parte do governo brasileiro. Estados e municípios vem agindo cada qual a sua maneira.
  • O ministro da economia insiste em vender suas propostas de reformas como a salvação da lavoura quando sabemos que o momento requer outro nível de discussão e de ações concretas de curtíssimo prazo.
  • Pode ser que entremos em nova recessão pois, o mercado não sobrevive sem a circulação de pessoas, dinheiro e mercadorias. Já se fala em crescimento zero para 2020 ou queda do PIB em até 2%.
  • Nota do Dieese (Dieese março 2020 – nota técnica 223) aponta como setores mais afetados: saúde, aviação, turismo, agropecuária, industrias dependentes de insumos importados e setor exportador, dentre outros que enfrentam queda direta da demanda.
  • Indiretamente teremos os seguintes setores afetados: serviços, comércio, administração pública, educação, dentre outros.
  • Mas é preciso lembrar que a economia já vinha sofrendo de uma recuperação anêmica, praticamente andando de lado, não conseguindo romper a barreira do 1,1% de aumento do PIB.
  • O conjunto de medidas já anunciados pelo Governo Federal (R$ 147,3 bilhões de reais) para lidar com a provável desaceleração da economia é positivo, mas ainda tímido e insuficiente.
  • Liberar mais dinheiro na mão dos bancos nunca significou colocar mais dinheiro disponível para empresas e pessoas, no Brasil.
  • As empresas irão sentir profundamente a falta de demanda devido ao auto isolamento das pessoas e proibições derivadas de ações públicas. As lojas não vendem, o dinheiro não circula e os compromissos seguem chegando para pagamento. É preciso liberar crédito a juro zero para que as empresas, em especial micro, pequenas e médias possam sobreviver.
  • Pelo lado da oferta, fábricas irão reduzir a produção ou mesmo parar, provocando um choque de oferta que poderá se transformar em inflação localizada, em certos produtos.
  • Outra área que não tem estado nada bem desde o impeachment de Dilma Rousseff é mercado de trabalho. A quarentena voluntária ou forçada das pessoas derrubará a atividade econômica e, com isso, o impacto no emprego será inevitável.
  • Pode ser que tenhamos demissões em massa, o desemprego vai subir além dos 12 milhões de desempregados.
  • As expectativas dos analistas do mercado estão bastante pessimistas e isto interfere na redução dos investimentos e na fuga de capitais, que tende a aumentar
  • Por aversão ao risco, as pessoas irão buscar investimentos financeiros seguros como o ouro e o dólar e isso fará disparar suas cotações. As bolsas seguirão em queda por estarem na zona de alto risco das aplicações.
  • Empresas endividadas terão problemas para honrar seus compromissos e precisarão de mais tempo e renegociação de financiamentos, em bases mais compatíveis com a situação de emergência.
  • Um estudo de três professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Aline Magalhães, Débora Freire e Edson Paulo Domingues, citado em reportagem da revista Carta Capital on line, projeta uma queda do emprego de 0,1% com o coronavírus. Isso faria o PIB cair 0,14% e a renda das famílias, 0,1%. Proporções que podem ser replicadas: se o emprego encolher 1%, o PIB andará 1,4% para trás e a renda das famílias, 1,1%.
  • “Os efeitos econômicos negativos da crise do coronavírus tendem a afetar mais a renda dos mais pobres”, anota o estudo. Esses “mais pobres” são os que ganham até dois salários mínimos, 2.090 reais. Um valor próximo à média recebida pelos 94 milhões de brasileiros que tinham algum trabalho em janeiro, de R$2.361 de rendimento médio mensal, conforme o IBGE.
  • A informalidade no Brasil bate recorde, 40% em janeiro, segundo o IBGE. E são esses trabalhadores informais os que vão sofrer mais os efeitos econômicos do coronavírus, conforme o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em linha com o que dizem os professores da UFMG.
  • Centrais Sindicais: Em documento ao Congresso e ao governo, cobram garantia de estabilidade no emprego durante a crise e ampliação do seguro-desemprego. De onde tirar a verba? Suspendendo a lei do teto de gastos, que impede alta dos investimentos estatais, e renegociando parte do pagamento dos juros da dívida interna.
  • O País tinha em janeiro, último dado oficial do IBGE, 11,9 milhões de desempregados e uma taxa de desocupação de 11,2%. Esses números são um pouco maiores que os de dezembro de 2019, de 11,6 milhões e 11%, respectivamente.
  • De acordo com o Dieese, o primeiro pacote de medidas anunciado por Guedes, em 16 de março, não tinha nada para os informais, só para quem tem carteira assinada, como o adiamento por três meses do pagamento do FGTS pelos patrões.
  • Em entrevista coletiva em 18 de março, Bolsonaro e Guedes anunciaram o pagamento de 200 reais mensais para trabalhadores autônomos durante três meses. O gasto previsto será de 15 bilhões de reais. Só não sabem como fazer o dinheiro chegar a quem precisa.
  • O reconhecimento da situação de calamidade pública, com as repercussões que terá sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal, vai oferecer ao governo parte considerável dos necessários instrumentos financeiros para combater essa pandemia. Permitirá fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e também que o governo coopere com estados e municípios para que possam enfrentar os riscos da pandemia.
  • O orçamento sancionado pelo governo prevê um déficit primário de R$ 124,1 bilhões como meta fiscal para o governo central. Com a adoção do estado de calamidade, o governo ficará dispensado de seguir os prazos para ajuste das despesas de pessoal e dos limites de endividamento; para cumprimento das metas fiscais e para adoção dos limites de empenho (contingenciamento) das despesas até 31/12/2020.
  • Sofrerão mais os mais pobres, os mais vulneráveis, os habitantes de áreas sem saneamento, os trabalhadores informais e aqueles que não têm acesso aos sistemas de saúde de qualidade.
  • Para os trabalhadores desassistidos (autônomos e informais) é preciso desenvolver um conjunto de benefícios que lhes garanta a manutenção da renda. Um abono de duração compatível, via seguro desemprego, pode ser uma boa estratégia.
  • Para os trabalhadores formais é importante garantir a estabilidade nos empregos pelo tempo que durar a crise, além dos abonos de faltas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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