Especialista alerta: risco das barragens em MG não pode ser esquecido

É preciso falar de rejeito, de mineração, de inovação, tecnologia e responsabilidade empresarial…

Patrícia Boson, uma das mais importantes estudiosas do setor ambiental do país, analisa os impactos da mineração em Minas (Foto: divulgação)

Danilo Andrade
dandrade@interessedeminas.com.br

O Interesse de Minas abre espaço para tratar de tema da maior importância para o estado e para os mineiros: meio ambiente. Queremos, e vamos fazê-lo, no preceito do jornalismo de qualidade – aquele que tem, sempre, pelo menos dois lados. E vamos fazê-lo sem paixões e sem sectarismos de qualquer nuance. Ou seja, mais do que nunca, os mineiros precisam falar de mineração, rejeitos, inovação e responsabilidade empresarial na área.

O portal amplia, a cada dia, sua cobertura da área, de maneira crítica e equilibrada, mas jamais em cima do muro. Neste debate, nossa missão é de fornecer informações que possam estimular reflexões sobre formas de promoção do crescimento de maneira sustentável. 

Nosso pressuposto é o de que o banimento da atividade não é a melhor solução, por muitas razões: por sua importância na longa cadeia produtiva da qual faz parte; por sua relevância para a economia do nosso estado e do país; e, ainda, pela relação entre a mineração e o desenvolvimento socioeconômico de toda a humanidade. 

Na estreia da editoria DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, a entrevista de Patrícia Boson, uma das mais importantes estudiosas do setor ambiental do país, que desfruta de grande respeitabilidade por parte de governos, ONGs e empresas. Patrícia vem de família de muitas lutas democráticas. Seu pai, o ex-reitor da UFMG Gerson Boson, foi cassado pelo golpe de 1964.

Lembrando as tragédias de Mariana e Brumadinho – tragédias anunciadas -, ela adverte para a necessidade de um grande e honesto debate sobre os rejeitos da mineração e as barragens de contenção.

ENTREVISTA

Barragens e rejeitos: problemas sem solução que precisam ser corrigidos

Depois do rompimento das barragens de Fundão (Mariana) e Córrego do Feijão (Brumadinho), muito se falou sobre os rejeitos da mineração de ferro e muito pouco foi dito. Mitos, dogmas, verdades e mentiras encapsularam o tema, conspirando contra o pensamento inovador e propondo a prevalência do maniqueísmo simplório.

De um lado, estão os que colocam em xeque a sustentabilidade da própria atividade minerária, com propostas de restrições limitantes e, no extremo, até o banimento da atividade em um estado que tem a mineração no próprio nome. De outro, os eternos defensores de soluções tradicionais/paliativas que só criam problemas futuros, como demonstram os acidentes da Mariana e Brumadinho.

Patrícia Boson faz o alerta: o risco é grande e precisa ser corrigido. Não pode ser esquecido, muito menos subestimado. Na entrevista, ela analisa, com profundidade, a questão dos rejeitos. Uma das alternativas das mineradoras, por exemplo, é transformá-lo de problema em ativo. Confira mais na entrevista de Patricia Boson:

INTERESSE DE MINAS: O rejeito de minério de ferro é tóxico, corrosivo e/ inflamável?

PATRÍCIA BOSON: O rejeito de minério de ferro não é tóxico, não é corrosivo e também não é inflamável. Trata-se de um composto de minério de ferro, areia e água. De maneira geral, a composição é de 70% areia, 10% ferro, oriundos de perdas do processo, e 20% de lama com ultrafinos de minério.

IM: Por que, então, análises feitas após os acidentes de Mariana e Brumadinho indicaram toxicidade?

PB: O que ocorre é que o lançamento de grandes quantidades de rejeito de minério de ferro em cursos d’água, em curto espaço de tempo, como ocorreu nesses dois acidentes, provoca um processo físico, mecânico, que é o revolvimento dos sedimentos acumulados no curso de água durante anos e até décadas. Quase sempre, nesses sedimentos é que se encontram as substâncias tóxicas advindas de outras atividades humanas e, principalmente, do esgoto doméstico.

IM: Qual a relação entre a geração de rejeito e processo minerário?

PB: Nenhuma. O rejeito está associado ao teor de ferro encontrado na rocha. Assim, ao contrário do que usualmente se ouve, o rejeito de mineração não é o que sobra quando se usa a água para separar o minério de ferro do material minerado. Tampouco é resultado de falta de investimentos em inovação e desenvolvimento de tecnologias nos processos de beneficiamento do minério, seja seco ou úmido. Esses avanços podem diminuir as perdas de ferro no processo, em torno de 10% do volume total de rejeito, e assim elevar ganhos de produção. Considerando a preocupação com o aproveitamento máximo de uma lavra já autorizada, garantindo a extensão da vida das jazidas, e considerando a exaustão das reservas minerais de alta qualidade (teor de hematita), a tendência é de crescimento da mineração de ferro de baixo teor, significando maior geração de rejeito.

IM: É possível resolver o problema do rejeito de minério apenas pela via do seu reaproveitamento para outros produtos, como se ouve muito dizer, especialmente por ocasião de tragédias como as de Mariana e Brumadinho?

PB: Primeiramente, é verdade que já existem e estão bem avançadas pesquisas para o aproveitamento do rejeito na produção de ladrilhos hidráulicos, blocos pré-moldados, artefatos cerâmicos, sais férricos (para o saneamento básico), pigmentos para tintas, dentre outros produtos. As próprias mineradoras sinalizam (avanços tecnológicos recentes, ainda em consolidação) a viabilidade de reutilização da lama (20%) na “reblendagem”. Assim, com todas essas opções e conforme os noticiários, tem-se a impressão de que é tarefa simples, basta decisão política de enforcement.

IM: E é realmente simples assim?

PB: Não é bem assim, é preciso considerar o volume do rejeito.  Estamos falando de volumes monumentais, espetaculares, quase inimagináveis. Apenas no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, o estoque atual estimado, acumulado em 20 anos de operação, é de 3 bilhões de m³ – são 1.500 Maracanãs.

Fica evidente, portanto, que a solução do problema do rejeito de minério apenas pela via do reaproveitamento é complexa, pois se condiciona à superação de desafios gigantescos: custo da logística, impactos do transporte de resíduo; escala de geração dos rejeitos e o descompasso com seu reaproveitamento; concorrência e impacto socioeconômico em cadeias produtivas já estabelecidas; desconhecimento do custo e do mercado; regulação e certificação dos produtos; disponibilidade e atratividade de capital. Tudo isso vencido, ainda restará a questão de estruturas de armazenamento dos produtos e subprodutos.

IM: Como resolver?

PB: A verdade é que não existe uma solução única e simples para a questão dos rejeitos de minério. Mas, nem por isso se pode postergar, ou decidir por soluções tradicionais/paliativas, aparentemente seguras, como até o momento estão sendo apresentadas pelas mineradoras e agências reguladoras, que certamente trarão maiores problemas futuros. É preciso debruçar sobre esse tema, com toda a complexidade que ele tem, com garra e ousadia. É preciso abrir corações e mentes para o desenvolvimento e a implantação de ações inovadoras que, além de considerar o reaproveitamento máximo, também tenham solução de destinação, fora do complexo minerário, para o que exceder e que, com certeza, será maior do que a quantidade reaproveitada. Uma solução definitiva, que, no médio e no longo prazos, não ameace a população, as próprias empresas e o próprio estado, que precisa dos impostos gerados pela atividade mineradora e de toda a cadeia de produção para crescer, inovar e financiar programas de cunho social.   

 IM: Barragens de rejeito são seguras?

PB: É uma grande falácia afirmar que barragem de rejeito de minério é simples, segura e barata. No imediatismo de uma análise pós-tragédia, talvez. Mas os dois recentes desastres de rompimentos das barragens – Mariana e Brumadinho – comprovam o contrário. Veja bem: de um lado, temos as evidências das incertezas críticas na gestão dos riscos de estabilidade dessas estruturas que contestam a narrativa de que barragens de rejeito são simples e seguras. De outro, temos o custo direto, estimado em US$ 10 bilhões para atender e compensar os impactos em Mariana e em US$ 20 bilhões em Brumadinho. Esses custos, se somados aos custos indiretos e intangíveis – valor da imagem e da marca da empresa, riscos a projetos de ampliações futuras, entre outros -, mostram que é possível chegar a mais que o dobro desses valores. Fica claro, assim, que a solução via barragem, definitivamente não é barata.

 IM: Ainda sobre as estruturas de armazenamento dos rejeitos: barragens a jusante ou a montante? Empilhamento a seco?

PB: É preciso discutir, e muito, as opções até aqui apresentadas para o armazenamento dos rejeitos de minério: sejam as barragens de alteamento a jusante, tidas como menos inseguras do que as que se romperam (alteamento a montante), ou o empilhamento a seco, apresentada como vantajosa em relação às demais. Aqui, o mais importante é discutir e refletir sobre uma característica básica dessas opções, que é o fato de todas elas serem “estruturas de abandono”.

 IM: O que é uma “estrutura de abandono?”

PB: São estruturas que estarão sempre – ad eternum – expostas a intempéries e riscos climáticos e à constante vigilância sobre o uso e a ocupação do solo em seu entorno, requerendo, em tempo infinito, monitoramento e demais ações de gestão, além de ocuparem área considerável de solo que poderia ter um aproveitamento de maior valor agregado. Ou seja, essas estruturas de armazenamento, para as quais não se pode descartar o risco de rompimento, em razão de incertezas biogeofísicas, podem resultar em risco de dano ambiental considerável e até perda de vidas. Se nada mudar, se novas soluções não forem adotadas, elas ficarão para sempre onde estão hoje ou onde forem construidas quando se tratar de minerações futuras. Além de tudo isso, na gestão desse tipo de passivo, perpassa, sempre, a eterna dúvida: depois de exauridas as minas, as empresas terão fôlego para cumprirem suas obrigações? 

 IM – Concluindo, qual a sua mensagem para os leitores do interessedeminas.com.br sobre a questão da mineração?

PB: Precisamos refletir, muito, sobre o assunto rejeitos de minérios, barragens, tragédias. Só se deve falar em rejeito quando todas as possibilidades de reaproveitamento ou reciclagem já tiverem sido esgotadas.

Nosso entendimento é o de que não devemos partir do termo rejeito. O mais adequado é pensarmos em excedentes. Seja porque não foram esgotadas todas as possibilidades de reaproveitamento ou reciclagem, ao menos temporalmente, e, da mesma forma, ainda não foram exauridas as buscas por uma solução definitiva. Seja porque, como já afirmamos, trata-se de material inerte e não tóxico, constituído majoritariamente de areia. O que não se pode, definitivamente, é varrer para debaixo do tapete a verdade, inarredável, de que é preciso refletir, sempre com base na inovação (pensar fora da caixa) e no pensamento sistêmico.

ALERTA

Barragens de rejeitos: risco de novos rompimentos ainda gera temor em Minas

Da redação
redacao@interessedeminas.com.br

Passados oito meses da tragédia de Brumadinho – a maior da história da mineração em Minas Gerais e no Brasil -, com 251 mortos e 19 desaparecidos – Minas Gerais e os mineiros ainda convivem com o temor de que o pesadelo se repita.

De acordo com informações dos órgãos oficiais de fiscalização e controle, das 61 barragens de rejeitos construídas no país pelo método à montante, 41 estão no estado – ou seja, 70% do total. Os dados são confirmados pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A má notícia é que a solução ainda vai demorar anos.

Os prazos para o descomissionamento das barragens (encerramento da sua utilização), cujo risco de rompimento provocou a evacuação de cidades inteiras em Minas, foi mais uma vez postergado. Na época do acidente da barragem do Córrego do Feijão, o prazo   foi estabelecido para 2021. Agora, agora poderão ser feitos até 2027.

Até lá, medidas paliativas vão sendo colocadas em prática para minimizar os riscos de novos rompimentos. No caso da Vale, as barragens que estão em alerta máximo – nível 3 de risco – passam por obras de contenção para impedir que a lama volte a fazer estragos como nos episódios recentes. 

Os muros que serão erguidos para frear os rejeitos estarão distribuídos nos reservatórios B3/B4, da Mina Mar Azul, em Macacos e Nova Lima; Forquilhas I, II, III e IV, da Mina Fábrica, em Ouro Preto, onde os moradores em risco estão no município vizinho de Itabirito. Além disso, haverá barreiras também na barragem Sul Superior, da Mina Gongo Soco, em Barão de Cocais. 

Impactos econômicos

Os prejuízos com a tragédia do Córrego do Feijão também atingiriam fortemente a economia e a indústria de Minas Gerais. O PIB mineiro também apresentou um recuo de 0,7% no segundo trimestre de 2019, na comparação com o trimestre anterior, segundo estudos da Fundação João Pinheiro (FJP), órgão da Secretaria do Planejamento do governo do estado. O resultado está na contramão da média nacional, que registrou alta de 0,4% no mesmo período.

O setor extrativo-mineral foi o que mais teve perdas, motivado principalmente pela interrupção da produção depois do rompimento da barragem de Córrego do Feijão. O encolhimento foi de 22,2% no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro e 42,6% se comparado ao mesmo trimestre de 2018. 

Polícia Federal

Até o momento, 13 pessoas da Vale e da empresa TÜV SÜD, responsável por atestar a estabilidade da Barragem de Córrego do Feijão foram indiciadas pela Polícia Federal por falsidade ideológica. A investigação continua para apurar se houve dolo. Ninguém foi preso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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