Estilo keynesiano: Zema descobre função social do estado e oferece crédito a prefeituras

A oferta de crédito às prefeituras era uma das medidas que vinha se exigindo do governo Zema, como forma de se enfrentar a crise

Zema vem adotando, na prática, medidas de cunho keynesiano

João Carlos Firpe Penna
joaocarlos@interessedeminas.com.br

Para entender melhor a lógica da economia, vale a pena voltar um pouco na história – e ver o que há de comum entre o que ocorreu no capitalismo após a crise de 1929 e o que acontece na economia de Minas Gerais hoje.

Parte 1

Em crise, capitalismo descobre Keynes

Em 1929, o capitalismo mundial vivia uma de suas maiores crises, simbolizada pelo crack da Bolsa de Valores de Nova Iorque. À época, contrariando as crenças liberais segundo as quais o livre mercado comanda a economia, as ideias do economista britânico John Maynard Keynes entraram em evidência.

Para ele, o intervencionismo do Estado era a melhor saída para o desastre econômico gerado pela crise de 1929. Seus argumentos tiveram grande impacto diante do caos estabelecido e inúmeras nações passaram a empregar as já denominadas [sg_popup id=”2294″ event=”click”]ideias keynesianas Clique para ver o texto[/sg_popup] para revitalizar suas economias.

O caso mais exemplar de aplicação do keynesianismo à época foi o dos Estados Unidos. Em 1933, o recém empossado presidente Franklin Roosevelt implantou o New Deal – um conjunto de medidas econômicas embasadas nos conceitos do estado keynesiano.

Ou seja, para revigorar o emprego, o mercado consumidor e a produção, o estado passou a investir fortemente em obras públicas e na previdência social, salvando também diversas empresas por meio de empréstimos públicos. Bancos e até mesmo a Bolsa de Valores voltaram funcionar de maneira efetiva.

Parte 2

Em Minas, investimento público beneficia sociedade

Vamos dar um salto – dos EUA de 1929 para Minas Gerais de 2019.

Recentemente, a imprensa mineira noticiou que mais de 470 prefeituras de Minas Gerais aderiam ao edital de crédito lançado em maio pelo governo do estado, por meio do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

A lógica dessa iniciativa era, exatamente, oferecer crédito em condições especiais (ou seja, abaixo das taxas selvagens cobradas pelos bancos comerciais em geral) para as prefeituras. O momento é especialmente grave para os municípios, diante da crise e da falta de repasse legal de tributos por parte do próprio estado.

A oferta de crédito às prefeituras era, inclusive, uma das medidas que vinha se exigindo do governo Zema, como forma de se enfrentar a crise, como já registrou aqui o portal Interesse de Minas.

Vejamos alguns aspectos importantes para se entender melhor o que se passa:

  • A necessidade de ajuda é tamanha que nada menos do que 476 prefeituras (ou seja, mais da metade dos 853 municípios mineiros) estão pleiteando a linha de crédito;
  • A situação é tão grave que o valor global pleiteado (R$ 713 milhões) supera em muito o valor total disponibilizado (R$ 200 milhões) pelo BDMG;
  • Na prática: ou o banco eleva o valor disponível, chegando o mais perto possível dos R$ 713 milhões, ou seja, ou irá atender a pouco mais de 25% da demanda dos municípios;
  • Isso demonstra como há uma forte demanda reprimida por crédito por parte das prefeituras – para investimentos em áreas essenciais para a população, como construção, saneamento, energia, equipamentos para obras rodoviárias, dentre outras.

Parte 3

O que Zema tem a ver com Keynes?

Pelo pouco que se conhece até agora sobre as convicções e propostas econômicas de Zema, é possível aferir – como o portal Interesse de Minas já demonstrou – que o governador defende ideias bem próximas do chamado liberalismo, no qual o mercado é comandado pela livre iniciativa, ou seja, sem a presença do estado e com forte participação dos empresários.

As partes 1 e 2 deste texto procuram demonstrar, no entanto, que o estado pode ter um papel expressivo na economia, em especial em momentos de crise. E que o próprio governo Zema vem adotando, na prática, medidas de cunho keynesiano e de clara preocupação social.

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Não se pode aferir, no entanto, se o que o governo de Minas propõe agora será meramente paliativo ou não –, diante da gravidade da crise e da necessidade de o governo estadual manter uma intervenção maior ou não na economia nesse momento.

Nada impede, porém, de Zema rever suas convicções:

  • O ímpeto inicial de privatização, anunciado pelo governador Zema no início de sua gestão (Cemig, Copasa e Codemig, por exemplo) pode dar lugar a reflexões mais ponderadas sobre o tema;
  • A percepção de que a economia deve levar em conta que existe algo chamado “sociedade” que vai muito além das tais “exigências do mercado” também pode passar a pesar na balança.

Parte 4

O que o futuro nos reserva em Minas

Por fim, vale fazer um registro essencial diante das apostas sobre o futuro ainda pouco claro do governo Zema:

  • Logo após sua surpreendente vitória ao governo de Minas, Zema anunciou que uma das medidas de seu governo era “acabar com o BDMG”;
  • Como dito acima, diante da forte demanda das prefeituras por crédito a custos menos “mercadológicos”, talvez o governo Zema mude seu conceito sobre o papel da instituição;
  • Sabe-se que as prefeituras representam, pela proximidade com a população, o lado mais sensível do poder público diante das necessidades dos cidadãos.

Com base em tudo isso, o leitor do portal Interesse de Minas poderá, num futuro não muito distante, compreender melhor o que pensa o governante Zema sobre o papel do estado no desenvolvimento econômico e social de Minas.

Basta acompanhar de perto, por exemplo, o futuro que Zema reserva para o BDMG.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.