Por que as expectativas de crescimento e de mudanças caíram em MG e no Brasil?

Zema e Bolsonaro: eleitos em nome da “nova política”, mas já acumulando, em tempo recorde, muitas reversões de expectativas

Zema e Bolsonaro: eleitos em nome da “nova política”, mas já acumulando, em tempo recorde, muitas reversões de expectativas
Zema e Bolsonaro: eleitos em nome da “nova política”, mas já acumulando, em tempo recorde, muitas reversões de expectativas
(Fotos: Gil Leonardi/Imprensa MG e Alan Santos/PR)
João Carlos Firpe Penna
joaocarlos@interessedeminas.com.br

Perda de confiança dos empresários e de consumidores; queda nas expectativas da economia; retornos de indicadores aos patamares do período pré-eleitoral do ano passado; desânimo nos mercados; reduções nas projeções de crescimento tanto do PIB nacional quanto do mineiro.

Esse é o cenário das projeções de desempenho da economia de Minas e do país para 2019, transcorridos os três primeiros meses dos governos de Bolsonaro e de Zema. 

Vejamos alguns indicadores recentes dos cenários nacional e estadual e as decorrências deles:

  • Na segunda-feira (01/04), o Relatório Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, indicou, pela primeira vez no governo Bolsonaro, uma projeção de crescimento do PIB do país inferior a 2% ao ano (1,98%).
  • A estimativa de crescimento, elaborada com base na consulta de cerca de 100 economistas pelo Banco Central, vinha superando os 2,5% no início da gestão. Há quem trabalhe com 1,5% e até mesmo 1,1% para este ano.
  • O epicentro da queda é, sem dúvida, o modo como a Reforma da Previdência vem patinando no Congresso e nas negociações com o Planalto. Em meio a desentendimentos e até farpas de cunho pessoal entre as partes, ouviu-se da boca do ministro da Economia, Paulo Guedes, a afirmação de que ele não tem apego ao cargo e que poderia eventualmente sair do governo.
  • Essa breve sinalização da possibilidade de saída de Guedes já seria suficiente para explicar o desalento dos mercados e a queda das expectativas de empresários e consumidores.
  • Agora, os ânimos estão menos acirrados, o que pode contruibuir para reverter esse quadro.
  • Nessa semana, saiu também o indicador de produção industrial no país em fevereiro, que subiu 0,7% em relação a janeiro. O dado é positivo, mas o mercado trabalhava com um índice de pelo menos 1,1% para o período, para compensar o susto de janeiro, quando o resultado ficou em -0,7%.
  • Não por outro motivo, tanto o Indicador de Confiança Empresarial como o de Confiança do Consumidor, ambos levantados mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas, apresentaram queda de 2%, voltando sintomaticamente aos patamares do início de outubro do ano passado, exatamente o período anterior ao da vitória de Bolsonaro nas urnas.
  • Especialistas afirmam que o aparente desânimo se deve à constatação histórica de que um desempenho ruim da economia no primeiro trimestre normalmente torna-se fatal em termos de resultado real no final do ano, pois é nesse período que a economia precisa decolar para garantir o voo ao longo do ano.
  • Tudo isso deixa a conjuntura ainda mais grave ao registar novo recorde de alta na taxa de desemprego, que passou dos 12% no trimestre. E ainda: o país está com inflação e taxa de juros muito baixas, indicando que não são elas as vilãs da história, como já o foram num passado não muito distante.

Em Minas, um cenário ainda mais grave

Como terceira maior economia do país, Minas já seria naturalmente prejudicada por essa série de indicadores negativos e esse cenário por demais conturbado para um governo recém-saído das urnas com uma vitória expressiva em nível nacional.

  • O principal ponto de estrangulamento para a economia mineira está sendo, sem dúvida, a tragédia de Brumadinho, com as centenas de mortes e a repetição de um crime ambiental e humano que não se esperava viver de novo após o ocorrido em Mariana em 2015.
  • As projeções mais otimistas apontam para uma queda no PIB mineiro da ordem de -4% em 2019, ante uma previsão de um desempenho positivo de +3,3% feita em janeiro, antes do rompimento da barragem. O cenário mais pessimista indica um resultado negativo de até -12% no ano.
  • Tais cenários levam em conta não apenas os efeitos negativos sobre o setor da mineração, ainda carro-chefe da economia mineira, mas da economia como um todo, devido aos fortes efeitos cascata do segmento sobre os demais.
  • Evidentemente, o governo Zema não pode ser responsabilizado pela tragédia, mas muito pouco se tem visto em termos de iniciativas governamentais para se enfrentar os efeitos dela.
  • A gestão Zema parece estar, também, refém de uma provável agenda de renegociação da dívida do estado junto à União e a inclusão de Minas no Regime de Renegociação Fiscal do governo federal.

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  • Por outro lado, como já se analisou aqui, a gestão Zema vem encontrando resistências (assim como a de Bolsonaro) por parte do poder legislativo para fazer tramitar projetos de interesse do executivo. Para piorar, um também crescente número de prefeitos vem aumentando a pressão, insatisfeitos com a demora nos repasses de verba os municípios.

Tanto em Minas como no Planalto

  • Bolsonaro e Zema foram igualmente eleitos com a marca da opção por algo chamado por eles de “nova forma de fazer política”.
  • Contudo, são muitos os fatores que demonstram as dificuldades deles de colocar em prática essa tentativa se implantar um “novo modelo” de governança.
  • Por outro lado, são muitos os desalentos e as inversões de expectativas acumulados em tão pouco tempo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.