Tragédia anunciada: colapso em cidades mineradoras afeta toda a economia de Minas

Os números que dimensionam as perdas assustam: 40 milhões de toneladas de minério de ferro a menos e 65 mil postos de trabalho perdidos

Em três anos, crise na mineração pode levar a queda de 12% no PIB do estado e gerar 1,5 milhão de desempregados (Arte sobre foto de Marcelo Prates)
Raul Mariano, Patrícia Adriely e João Carlos Firpe Penna
redacao@interessedeminas.com.br

“Caos social”. É esse o termo utilizado no estudo da Associação de Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig) para descrever o cenário que se desenha diante da possível paralisação das atividades da Vale no estado. No levantamento, os números que dimensionam as perdas assustam: 40 milhões de toneladas de minério de ferro a menos e 65 mil postos de trabalho perdidos. Uma verdadeira ruína econômica que atinge em cheio as cidades onde a exploração mineral é a principal fonte de recursos.

Mas os impactos podem ser ainda mais expressivos se for considerado o peso da atividade na economia mineira como um todo. É o que aponta outro estudo recente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Em um cenário pessimista, 130 milhões de toneladas de minério de ferro podem deixar de ser extraídas, o que acarretaria a perda de quase 1,5 milhão de postos de trabalho até 2021 e a queda de 12% no PIB do estado.

Em 3 anos, crise da mineração pode gerar…

… queda de 12% no PIB de Minas

1,5 milhão de desempregados

O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, admite que a crise está afetando drasticamente a economia de Minas, que é intrinsecamente ligada à atividade mineral. Para ele, as medidas restritivas que estão sendo tomadas em relação às barragens tornam esse cenário cada vez mais grave para a economia mineira. Mas ressalta: “Em momento algum queremos que haja redução na segurança das barragens”.

O quadro se torna ainda mais preocupante diante do número de desempregados já elevado no país – quase 13 milhões de pessoas – e da crise financeira que assola os cofres mineiros, gerando atrasos de repasses e provocando até mesmo o parcelamento de salário dos servidores. Um imbróglio que, segundo economistas, não se resolverá no curto prazo.

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Procurado nesta semana pelo portal Interesse de Minas para avaliar ou comentar os impactos do colapso da mineração na economia mineira como um todo e quais as propostas para as cidades mineradoras que estão vivendo dificuldades financeiras, o governo do estado informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que ainda não tinha um levantamento consolidado sobre a questão.

O impacto em números

Segundo a Amig, a queda de 40 milhões de toneladas na extração de minério de ferro, anunciada pela Vale, deve afetar a balança comercial do estado em R$ 7,7 bilhões. Já as paralisações das operações das minas de Timbopeba (Ouro Preto) e de Alegria (Mariana), determinadas pela Justiça, afetarão em R$ 4,4 bilhões a balança comercial. Elas são capazes de gerar 22,8 milhões de toneladas de minério ao ano.

Além disso, somadas, as perdas de arrecadação com a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem) e a Taxa de Fiscalização de Recursos Minerais (TFRM) – principais verbas públicas vindas da mineração – podem chegar a R$ 116,4 milhões já em 2019, segundo o levantamento da Amig.

Uma verdadeira ruína econômica que atinge em cheio as cidades onde a exploração mineral é a principal fonte de recursos

O presidente da Amig e prefeito de Nova Lima, Vitor Penido, ressalta que a dimensão humana precisa ser levada em conta. “Mesmo que seja temporariamente, não pode haver a diminuição drástica da atividade minerária nesses territórios sem planejamento, especialmente no período de transição para um modelo de mineração pujante e mais seguro”, defende.

Para o consultor de Relações Institucionais da Amig, Waldir Salvador, a interrupção das atividades podem instaurar um caos social nas cidades mineradoras. “Nos bastidores dos números do estudo, encontram-se vidas, cidades, especialmente as de Nova Lima, Brumadinho, Ouro Preto, Congonhas e São Gonçalo do Rio Abaixo (esta última paralisada por decisão judicial) e de toda a região que está localizada no entorno, que sofrerão de forma drástica com o colapso na arrecadação e, consequentemente, com a prestação de serviços básicos como saúde, educação, infraestrutura e com o desemprego”, afirma ele.

CENÁRIOS DRAMÁTICOS

Temor pelo futuro de Brumadinho

Mas, se o cenário dramático ainda é uma projeção negativa para a maior parte dos municípios, nas cidades mineradoras ele já é uma realidade. “A Vale é uma doença necessária”, afirma Avimar de Melo, prefeito de Brumadinho, onde as atividades da empresa estão totalmente paralisadas e não há sequer previsão para retomada.

“Sozinha, a empresa responde por 60% da economia da cidade. São 1.500 funcionários e uma arrecadação de quase R$ 5 milhões por mês só com a Cfem”, explica o prefeito, que teme pelo futuro do município. “Sem esse dinheiro, vamos fechar o hospital e manter só a UPA aberta. Até os serviços básicos, como coleta de lixo, serão comprometidos”, revela Melo.

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Medo em Barão de Cocais, Ouro Preto e Macacos

Desde o rompimento da barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho, o medo de novos desastres tomou conta das cidades onde há mineração. O som de sirenes se tornou parte do cotidiano de municípios como Barão de Cocais e Macacos e levou embora o sossego que antes reinava nessas comunidades.

A tragédia ocorrida em 25 de janeiro deixou, até o momento, 216 mortos e 88 desaparecidos, e foi um divisor de águas na mineração. Desde então, o rigor na medição de estabilidade dos reservatórios se tornou muito maior, e o nível de emergência passou a ser acionado com frequência.

Hoje, de acordo com a Vale, há risco real de rompimento em pelo menos mais três barragens em Minas. O nível de alerta foi elevado de 2 para 3 nas estruturas B3/B4 da mina Mar Azul, em Macacos, e de Forquilha I e III, da mina Fábrica, em Ouro Preto.

Crise em Mariana afeta serviços públicos

“Somos reféns da mineração e precisamos de socorro do poder judiciário para que as mineradoras mantenham os serviços essenciais que dependem desse recurso”, afirma Duarte Júnior, prefeito de Mariana, que decretou estado de calamidade financeira na cidade histórica em 25 de março.

E não era para menos. A arrecadação do município com as mineradoras Vale e Samarco era de R$ 30 milhões por mês em 2014. Hoje, de acordo com prefeito, é de pouco mais de R$ 12 milhões. Uma perda de 60% em apenas cinco anos.

“A Vale é responsável por tudo o que está acontecendo em Mariana, por toda essa crise. Sendo assim, ela tem que arcar com os prejuízos”, critica Duarte. “Quem sofre é a população, e eu não vou permitir que ela pague por irresponsabilidades de empresa alguma”, garante o prefeito.

Com a paralisação das atividades, estima o gestor, o valor arrecadado chegará a zero nos próximos meses. Os reflexos são imediatos: serviços essenciais como cirurgias eletivas e limpeza urbana já foram suspensos por tempo indeterminado. Para piorar, 700 funcionários já foram demitidos.

Em Congonhas, risco afasta turistas

A cidade que é mundialmente conhecida por abrigar esculturas do mestre Aleijadinho não está recebendo visitantes. De acordo com o prefeito da cidade, José de Freitas Cordeiro, o Zelinho, “o Santuário, patrimônio da humanidade, além dos museus, restaurantes, hotéis e toda uma cadeia produtiva da economia criativa estão sofrendo, e muito, essas consequências”.

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Além disso, segundo o prefeito, Congonhas vai perder R$ 1 milhão por mês de Cfem, por causa da interrupção da operação da Mina de Fábrica. “O reflexo disso sentiremos já agora em maio, porque o estado só repassa aos municípios três meses após recolher”, relata, apreensivo.

Ele realizará uma reunião com a direção da Vale para reafirmar a não necessidade de parar as operações enquanto são feitos os reparos necessários das barragens da região, na tentativa de se preservarem os empregos.

ANÁLISE

Para Conselho de Economia, falta de planejamento gerou problemas atuais

O planejamento que faltou no passado gerou os problemas do presente e será imprescindível para evitar que os mesmos erros se repitam no futuro. A análise é do presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-MG), Paulo Bretas.

Ele destaca que nenhum município se preocupou em criar fundos de ressarcimento e segurança para eventuais crises no setor de mineração. Ao contrário, todas as cidades utilizaram os recursos apenas para custeio do dia a dia.

“Hoje a mineradora vem, extrai e vai embora. O que fica para a população? Nada além daquele emprego momentâneo. A mineração não tem deixado legado para Minas e, mais do que isso, se tornou uma inimiga. Está ficando insuportável”

Paulo Bretas, presidente do Corecon-MG

A partir de agora, ressalta Bretas, é preciso criar projetos sólidos e “deixar de improvisar o tempo todo”. Nesse sentido, o economista aponta a articulação do governo estadual com a União como a única maneira de conseguir ajuda financeira emergencial.

“No curto prazo, não há maneira de Minas viver sem a mineração”, afirma. “Até porque temos uma reserva de nióbio que vai durar mais 400 anos, e Minas Gerais concentra pelo menos 90% desse mineral no mundo”, avalia o economista.

ESTUDO ECONÔMICO DA FIEMG

Em 3 anos, PIB pode cair 12% e gerar 1,5 milhão de desempregados

A cada dia, Minas Gerais está descobrindo que os efeitos das tragédias da mineração no estado são bem maiores e mais profundos do que se poderia imaginar – desde o rompimento da barragem de Mariana, passando por Brumadinho e, agora, na preocupante perspectiva para os próximos anos.

Dados do mais recente estudo econômico realizado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) sobre as atividades minerárias estaduais confirmam as perspectivas apontadas acima.

Entre os três cenários traçados pelo estudo, o mais pessimista – mas não menos realista – indica que a atual crise da mineração pode levar a uma queda de 130 milhões de toneladas na produção de minério de ferro e de outros minerais nos anos de 2019, 2020 e 2021.

Esse cenário indica que nada menos do que 1,48 milhão de pessoas poderão perder os empregos no estado. Esse número corresponde a mais de 11% do total de desempregados no país, cujo total bate na casa dos 12,7 milhões de trabalhadores.

Com isso, pode haver uma redução de R$ 27 bilhões na massa salarial no estado, fazendo com que o PIB mineiro sofra uma queda de nada menos do que 12% nesses três anos. Ao mesmo tempo, poderá ocorrer uma redução de R$ 6 bilhões na arrecadação direta do estado, levando a uma redução de quase 27% no PIB industrial.

Vale ressaltar que os dados estimados pelo levantamento da entidade refletem os impactos da crise na economia como um todo – e não apenas no setor minerário. Isso reflete, obviamente, o forte impacto da mineração e os fortes efeitos em cascata que o segmento gera na economia como um todo.

O estudo da Fiemg levou em conta também outros dois cenários menos pessimistas: um que reflete a realidade atual, considerando os impactos já sentidos no setor até os dias de hoje, e um mais positivo, com a retomada de boa parte das atividades minerárias já a partir do ano que vem.

Confira aqui o estudo completo

EM NÚMEROS

Impactos da crise da mineração no estado

  Paralisação das atividades da Vale, com interrupção
Produção de 40 milhões de toneladas/ano
Paralisação das operações das Minas de Timbopeba (Ouro Preto) e de Alegria (Mariana)
Produção de 22,8 milhões de toneladas/ano
Balança Comercial (R$) – 7,7 bi – 4,4 bi
Taxa Estadual Recursos Minerais (TFRM) (R$) – 57,4 mi – 32,7 mi
Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) (R$) – 237,7 mi – 83,7 mi
Número de postos de trabalho (diretos e indiretos) – 65 mil Não mensurado
Fonte: Amig

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