Em trecho duplicado, BR-381 garante crescimento no Sul de Minas Gerais

Essa realidade contrasta com a do trecho BH-João Monlevade, onde ainda é a “rodovia da morte”; a via foi inaugurada há 60 anos por JK

Essa realidade contrasta com a do trecho BH-João Monlevade, onde ainda é a “rodovia da morte”; a via foi inaugurada há 60 anos por JK (Foto: Divulgação)
Por Ney Doyle | Especial para o portal Interesse de Minas*

Na divisa de Minas com São Paulo, a BR-381 tem sido a porta de entrada para o desenvolvimento econômico da região. Com a duplicação concluída em meados dos anos 2000 na região, a rodovia atraiu para Minas muitas empresas que geraram emprego e renda em muitos municípios, como o município de Extrema que, apesar de pequeno em termos de população, tem se demonstrado grande na produção de riquezas.

Esse cenário de crescimento, no entanto, contrasta com a realidade da outra ponta da mesma rodovia, também em Minas Gerais, no trecho entre Belo Horizonte e João Monlevade, que ainda não foi duplicado e é conhecido como “rodovia da morte”.

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Movimento no comércio e na indústria de Extrema se multiplica

A população da pequena cidade, localizada na divisa com o estado de São Paulo, desconhece o significado real da palavra crise, pelo menos naquele local. Há quase 20 anos, eles estão acostumados a um volume cada vez maior de dinheiro circulando no município.

Quem tem empresas ou negócios por lá anda sorrindo pelas praças. A cada ano, o movimento no comércio e na indústria se multiplica. Os serviços são cada vez melhores, com escolas, hospitais e segurança pública. Os 800 quilômetros de estradas rurais estão quase totalmente asfaltados, levando turistas a recantos paradisíacos da preservada Serra da Mantiqueira.

Dos 35 mil habitantes computados pelo IBGE – dados atualizados no ano passado -, mais de 70% vêm de outras cidades. E ninguém reclama. Quem chega de fora traz ideias novas e exige mais. Quem já era de lá só aproveita as boas condições.

Trabalho não falta. Mas exige cada vez mais especialização, o que é percebido até no comércio. José Honório, de 62 anos, dono da padaria Tia Vilma, agradece a todos os prefeitos que passaram pela administração municipal desde o ano 2000. Independente da política e do partido, todos deram prosseguimento ao projeto de atração de empresas para a cidade.

José Honório, dono da padaria Tia Vilma
José Honório, dono da padaria Tia Vilma, já emprega 10 funcionários, todos com cursos de especialização (Foto: Divulgação)

Antes, o fraco movimento na padaria só melhorava nos finais de semana. E o proprietário dava conta do recado. Agora, são mais de 10 funcionários, todos com cursos de especialização, trabalhando a semana inteira.

Sua loja, que funciona há 35 anos no mesmo local, está sempre cheia. Nostálgico, José Honório relembra o passado, mas insiste que os tempos atuais também são bons. “Amo a Extrema de todas as épocas”, afirmou.

PIB em ascensão

A cidade de Extrema se prepara para assumir a primeira posição no ranking das mais ricas do Sul de Minas. Com R$ 6,1 bilhões de PIB computados pelo IBGE no ano passado, e mais R$ 1 bi em investimentos previstos para este ano, pretende ultrapassar a também importante economia de Pouso Alegre, atual líder da região.

E ainda tem a vantagem de ter apenas 35 mil habitantes, contra 148 mil da concorrente. Rica e desenvolvida, Extrema ainda respira um ar de interior, uma pacata cidade onde não há congestionamentos e apenas um semáforo.

Com muito verde, lagos e cachoeiras, a cidade abriga mais de 100 pousadas espalhadas pela Serra da Mantiqueira. No inverno, o clima frio, com temperaturas que chegam a quase zero grau, atrai turistas de todas as partes do Brasil.

Os principais motivos são a duplicação da Fernão Dias, sua localização estratégica, incentivos fiscais, investimentos em educação, saúde e segurança pública.

A 490 quilômetros de BH, mas a apenas 100 de São Paulo, Extrema começou a trabalhar na atração de indústrias bem antes do início das obras da BR-381. Entidades como a Fiemg e o Instituto de Desenvolvimento Industrial (Indi) já previam uma concentração excessiva de indústrias no estado vizinho, o mais rico do Brasil, mas caminhando para a deterioração da qualidade de vida dos trabalhadores dessas empresas.

O projeto foi se transformando em realidade. Há 15 anos, o PIB anual de Extrema não ultrapassava os R$ 300 milhões, contra os mais de R$ 6 bi atuais.

Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico registram 1871 empresas, sendo 264 indústrias de pequeno, médio e grande portes. Entre elas estão Multilaser, Kopenhagen, Barry Callebaut, Ambev, Centauro, Bauduco, Ball, Acqualimp, Panasonic e Netshoes.

Todas elas chegaram a Extrema para fugir do caos social de São Paulo. Foram atraídas pela proximidade. Quem trabalha no município pode  assistir a uma peça de teatro na capital paulista e voltar para dormir em casa.

Impostos para as empresas, como o ICMS, podem chegar a meros 3%, dependendo da capacidade de geração de emprego e renda. Para abrir um negócio, todas as licenças são concedidas em menos de 30 dias, inclusive as ambientais.

Adriano Carvalho
Segundo Adriano Carvalho, município garante boa qualidade de vida para quem vem de fora (Foto: Divulgação)

É o que explica o secretário da pasta, Adriano Carvalho. “Não temos partido político quando se trata de investimentos. Cuidamos da infraestrutura. Garantimos uma boa qualidade de vida para quem vem, oferecemos facilidades e mão de obra especializada”, diz.

O apoio não se restringe ao morador da cidade. O homem do campo é incentivado a permanecer nas suas terras, recebendo salário da prefeitura para tomar conta de sua área, preservando as nascentes.

O programa faz parte do premiado projeto Conservador de Águas, cópia do que acontece há anos nos Estados Unidos. Ali, o trabalhador rural tem incentivos para não se transferir para a cidade.

Comodidade

O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos da região, Gilmar Abrahão, que chegou a Extrema em 1997 para trabalhar na extinta Yannes, compartilha a mesma opinião.

“Me lembro da dificuldade em achar restaurantes para jantar após oito da noite. E nos finais de semana ficava tudo fechado. Hoje, não falta nada. É como se estivéssemos na comodidade de uma metrópole”, afirma.

O industrial, que hoje dirige a Nasha, líder no país na produção de mangueiras e peças para extintores, se gaba de poder trabalhar e jogar uma partida de tênis no mesmo dia, “sem atrapalhar minha agenda”, destaca. E confia muito na capacidade profissional de seus funcionários. “Todos têm treinamento específico para cada área”, diz, indicando o Senai como uma boa opção profissionalizante.

O Centro de Formação Profissional Janez Hlebanja dispõe de cursos de Logística, Processo Administrativo, Controle de Qualidade, Usinagem Mecânica, Eletroeletrônica, TI, Panificação e Costura Industrial.

Em 2018, formou 1247 alunos. “Muita coisa ainda pode melhorar. O mercado tem que estar preparado para um crescimento real que deve acontecer no país a partir deste ano”, prevê Abrahão.

Duplicação levou negócios à região

O boom industrial só foi verificado após a duplicação da rodovia Fernão Dias, em meados dos anos 2000. Hoje, pela BR-381, passam em média 200 mil veículos por dia, de acordo com dados da concessionária Arteris, que administra a estrada que vai de Contagem a Guarulhos. Mais de 60% estão na categoria caminhão ou ônibus.

A logística garante bons negócios. Apenas em janeiro, a incorporadora  Fulwood, por exemplo, investiu no local R$ 150 milhões em construção de condomínios industriais, dos R$ 300 milhões previstos para serem aplicados em 2019. Segundo a prefeitura, outros 80 empreendimentos chegam no decorrer do ano.

ÀS MARGENS DA RODOVIA

Itapeva é parada obrigatória para centenas de caminhoneiros

Itapeva, no Sul de Minas, era um pequeno distrito da cidade histórica de Camanducaia. Extrema, também no Sul, viu seu Produto Interno Bruto (PIB) aumentar em mais de 14 vezes nos últimos dez anos, sendo que boa parte desse aumento deve-se à duplicação da rodovia.

A realidade dessas duas cidades mudou – e muito – depois da construção da BR-381. Atualmente, Itapeva é parada obrigatória para centenas de caminhoneiros que trafegam pelos dois sentidos da rodovia, entre Belo Horizonte e São Paulo. São esses trabalhadores em trânsito que geram a quase totalidade do orçamento da prefeitura previsto para 2019, no valor de R$ 30 milhões. Por isso, os oito mil habitantes do município agradecem os benefícios trazidos pela construção da BR, apesar de alguns incômodos, como o barulho e  perigo de acidentes. Extrema, com novas indústrias e mais investimentos, assiste feliz à chegada do desenvolvimento.

A duplicação da BR-381, iniciada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, levou indústrias para toda a região sul de Minas Gerais, gerou emprego e renda, melhorou a qualidade de vida da população. E também significou a oportunidade de estudo para centenas de pessoas, como a jovem Maria Isabelle, de 18 anos, que ajuda a mãe há 12 anos no pequeno restaurante situado às margens da rodovia. “Temos carro, casa pra morar e ainda conseguimos ir à praia nas férias”, conta a jovem, contente por ver o restaurante receber caminhoneiros de todo o país para o tradicional arroz com churrasco servido no almoço.

DESENVOLVIMENTO

Há 60 anos, JK inaugurava a rodovia

Em janeiro de 1959, o então presidente Juscelino Kubitschek cortava o laço que marcou a inauguração do trecho Belo Horizonte – Pouso Alegre da Rodovia Fernão Dias, que ainda não estava totalmente finalizada. A obra, ligando duas importantes capitais brasileiras, foi finalmente concluída em 1961 e representou um passo significativo para o desenvolvimento da região. 

Sessenta anos depois, a rodovia tem um papel fundamental para a economia regional. Agora duplicada, por ela passam cerca de 200 mil veículos por dia, sendo 60% deles de transporte pesado, segundo dados da concessionária Arteris. Atualmente, mais de 40% de toda a economia mineira trafega pela BR-381. Caminhões transportam 60% da produção de ferro-gusa do Brasil e três milhões de toneladas de produtos agrícolas, e cinco milhões de pessoas vivem e trabalham na sua área de influência, segundo dados do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagens (DEER-MG).         

As obras de duplicação da 381, no entanto, demoraram bastante para serem totalmente concluídas: mais de 10 anos, sendo que  outros seis foram gastos no processo de  sua concessão. Mas isso não impediu a grande conquista para a região.

“A Fernão Dias sozinha é um mundo à parte. Ela tem toda uma cultura de caminhoneiros, ela tem uma cultura gastronômica muito forte, é um corredor de visualização de marketing fantástico. Os municípios precisam olhar a Fernão Dias como um canal de desenvolvimento”, diz Adriano Carvalho, secretário de Desenvolvimento Econômico de Extrema, um dos municípios que mais se beneficiaram da proximidade com a rodovia para crescer nos últimos anos.

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Trecho da Fernão Dias, no Sul de Minas, antes e depois da duplicação (Fotos: divulgação)

Homenagem ao bandeirante

A rodovia foi batizada com o nome de um dos maiores bandeirantes paulistas, Fernão Dias Paes Leme, conhecido como o “caçador de esmeraldas”, que viveu entre os anos de 1608 e 1681. E a maior referência ao bandeirante, na rodovia, fica no lado mineiro, na cidade de Pouso Alegre, em um monumento localizado próximo à alça de acesso ao município.

A expedição de Fernão Dias Paes Leme pelas terras do Sul de Minas a partir de São Paulo começou no ano de 1674 e durou até 1681. Durante esse percurso de sete anos, ele e sua comitiva chegaram até a região onde hoje é Sabará (MG). E muitos dos municípios da região se originaram dos antigos arraiais, que eram usados como pontos de concentração e cultivo de alimentos para o abastecimento das tropas.

* Com edição de Raul Mariano

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.