Depoimento: “Em segundos, muitas pessoas haviam sido engolidas pela lama”

Jornalista do portal Interesse de Minas acompanha de perto a tragédia do rompimento de Brumadinho (MG). Confira o relato

“O rompimento havia acontecido há poucas horas, mas já era possível perceber que o desastre tinha grandes proporções”, relata o jornalista (Crédito: Raul Mariano)

Jornalista do portal Interesse de Minas acompanha de perto a tragédia de Brumadinho. Confira o relato

Raul Mariano
raulmariano@interessedeminas.com.br

“Cheguei ao encontro do Rio Paraopeba com o Córrego do Feijão, em Brumadinho, por volta das 14h. O rompimento da barragem da Mina do Feijão havia acontecido há poucas horas, mas já era possível perceber que o desastre tinha grandes proporções.

Uma camada de lama de mais de um metro de espessura já havia chegado ao rio, deixando o curso d’água irreconhecível. Àquela altura, a notícia do crime ambiental já havia se espalhado e, aos poucos, centenas de pessoas se aglomeravam na linha férrea que permeia o local.

Moradores revoltados praguejavam contra a Vale. Parentes de desaparecidos choravam de desespero tentando fazer contatos telefônicos sem sucesso. Mães de empregados da mineradora passavam mal e precisavam ser levadas para atendimento médico a todo momento.

A única informação precisa que jornalistas, bombeiros, policiais, médicos e moradores tinham naquele momento é que muitas pessoas haviam sido engolidas pela lama em questão de segundos. A constatação trazia um misto de choque, pesar e revolta, diante da impossibilidade de fazer algo realmente útil para salvar vidas.

Não demorou para que os números chegassem para quantificar a desgraça que se abatia, novamente, sobre todos que estavam ali e viam uma espécie de filme se repetir. Pelo menos 300 pessoas desaparecidas, com raríssimas chances de estarem vivas.

Os primeiros contatos que tive com moradores do local, como era de se esperar, causaram nó na garganta. Uma senhora suja de lama até a cintura relatava com lágrimas nos olhos e mãos trêmulas a experiência de ter escapado por um triz da avalanche marrom que varreu a casa dela do mapa.

Conseguiu pegar a filha de 8 anos e os dois cachorros a tempo só porque foi à porta de casa tentar identificar que barulho diferente era aquele que estava se tornando mais alto. Se estivesse dormindo ou com a televisão ligada, explicava ela, estaria morta naquele momento.

Helicópteros do Corpo de Bombeiros e emissoras de TV sobrevoavam a área por horas, numa busca incessante por sobreviventes, mas, à medida que o tempo passava, a esperança de encontrar mais pessoas ilhadas, à espera de socorro, diminuía.

Assistir a uma hecatombe evitável, três anos depois de tudo o que aconteceu no município de Mariana, só reforça a única certeza possível neste momento: não foi acidente”.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.